A Noite Escura da Alma

Quando até a certeza de que vamos nos reerguer desaparece

Durante muito tempo, uma das poucas coisas que eu acreditava saber sobre mim era que, independentemente do que acontecesse, eu conseguiria me reerguer.

Isso não significava que minha vida fosse fácil.

Não significava que eu não tivesse medo, não sofresse ou soubesse sempre o que fazer.

Era apenas uma espécie de certeza silenciosa.

As coisas poderiam ficar ruins. Eu poderia não enxergar imediatamente uma solução. Poderia chorar, me desesperar por algum tempo, errar o caminho.

Mas, em algum momento, eu encontraria um jeito.

Eu seguiria em frente.

Até que houve uma época em que essa certeza desapareceu.

E talvez essa tenha sido uma das coisas mais assustadoras que já me aconteceram.

Não apenas sofrer.

Mas deixar de confiar que eu conseguiria sair do sofrimento.


Quando perceber não é suficiente

Há uma ideia reconfortante de que reconhecer aquilo que nos faz mal é o primeiro grande passo para mudar.

Talvez seja.

Mas existe uma distância dolorosa entre perceber e conseguir agir.

Eu percebia.

Percebia que estava esperando mudanças que não aconteciam. Percebia que, enquanto esperava que outra pessoa mudasse para melhor, alguma coisa em mim estava desaparecendo.

Eu me anulava.

Estava me perdendo de mim mesma.

Sabia que aquela não era a vida que queria.

E queria sair.

O problema é que querer sair e conseguir sair são coisas muito diferentes.

Às vezes enxergamos com uma clareza terrível o lugar em que estamos e, ainda assim, não conseguimos encontrar a porta.

Isso pode ser difícil de compreender para quem olha de fora.

“Se você sabe que está fazendo mal, por que continua?”

Como se consciência e capacidade fossem sinônimos.

Não são.

Eu sabia que precisava mudar alguma coisa.

Só já não acreditava que conseguiria.

E foi nesse intervalo — entre enxergar e não conseguir agir — que comecei a perder algo que, até então, eu nem sabia que podia perder:

a esperança em mim mesma.


Quando o futuro desaparece antes de desaparecer a vida

Houve um período em que a ansiedade se tornou quase constante.

Em algumas crises, o desespero era tão grande que eu experimentava episódios de despersonalização. Não era apenas a sensação de que a realidade parecia um sonho ou um pesadelo. Havia momentos em que eu me sentia estranha dentro do próprio corpo, como se ele não fosse inteiramente meu. Minha própria imagem podia parecer desconhecida, e sons e toques podiam se tornar intensos e incômodos. O mais angustiante era perceber aquela estranheza acontecendo e, ainda assim, saber que havia alguma coisa profundamente diferente na maneira como eu estava experimentando a mim mesma e o mundo.

E houve algo ainda mais difícil de admitir.

Às vezes, pensar na morte me trazia uma espécie de conforto.

Não porque eu planejasse tirar minha vida. Eu não queria fazer isso.

Eu queria que o sofrimento acabasse.

Às vezes pensava em simplesmente dormir e não acordar mais.

Ao mesmo tempo, havia outra coisa dentro de mim que se recusava a desaparecer completamente.

Eu ainda tinha sonhos.

Ainda havia coisas que queria realizar.

E havia um pensamento que doía justamente porque significava que alguma parte de mim ainda conseguia imaginar outra vida:

eu não queria morrer sem ter sido minimamente feliz.

Hoje, olhando para isso, tenho cuidado para não transformar aquela frase em uma história bonita sobre esperança.

Naquele momento, não parecia bonita.

Não parecia profunda.

Parecia desespero.

Talvez nem toda esperança se pareça com esperança enquanto estamos vivendo.

Às vezes ela pode ser apenas uma pequena recusa interior em aceitar que aquilo que estamos vivendo será tudo o que teremos.


Eu queria voltar a ser aquela menina

Nos momentos de maior ansiedade, eu pedia ajuda aos céus.

E havia algo muito específico no que eu queria de volta.

Eu queria ser, pelo menos um pouco, aquela menina sem tanto temor.

Aquela que, mesmo quando encontrava dificuldades, seguia adiante acreditando que, de algum modo, tudo acabaria se resolvendo — desde que ela não desistisse.

Em algum momento cheguei a temer outra coisa:

que eu me tornasse amarga.

Isso nunca havia feito parte da imagem que eu tinha de mim mesma.

Eu sempre havia sido leve, brincalhona.

E então percebi que o sofrimento pode nos assustar de duas maneiras.

Temos medo do que está acontecendo conosco.

Mas também podemos começar a ter medo de quem nos tornaremos por causa daquilo que está acontecendo.

Eu queria sair.

Mas também queria voltar.

Voltar para mim.

Hoje não sei se isso é inteiramente possível.

Talvez algumas experiências nos façam descobrir que não existe um caminho perfeito de volta para a pessoa que éramos.

E talvez uma das perguntas mais difíceis seja justamente esta:

se eu não posso voltar a ser exatamente quem era, quem serei depois daqui?


Então encontrei uma expressão

Curiosamente, não conheci a expressão “noite escura da alma” no momento mais desesperador.

Ela apareceu quando eu começava a recuperar alguma perspectiva.

Minha vida exterior ainda não estava completamente diferente.

Eu ainda não podia dizer: acabou.

Mas alguma coisa dentro de mim já começava a dizer:

isso não será para sempre.

Foi então que encontrei aquelas quatro palavras:

a noite escura da alma.

Não foi apenas “noite”.

Nem apenas “alma”.

Foi a expressão inteira.

Havia nela uma sensação de travessia.

Uma noite pode ser longa.

Pode ser fria.

Pode parecer interminável quando estamos dentro dela.

Mas existe alguma coisa curiosa na própria ideia de noite:

ela nos faz pensar na manhã.

E a imagem que me veio não foi a de um nascer do sol cinematográfico.

Foi muito mais simples.

O frescor de uma manhã de inverno ou de primavera.

Aquele ar diferente que anuncia que alguma coisa passou.

A expressão parecia tocar algo que eu conhecia.

Mas havia uma pergunta que eu ainda não tinha feito:

o que é, afinal, a noite escura da alma?


Muito antes de virar uma expressão da internet

A história nos leva ao século XVI e a São João da Cruz, religioso carmelita, poeta e um dos grandes nomes da tradição mística cristã.

E aqui aconteceu algo que eu não esperava quando comecei a pesquisar.

A “noite escura” de São João não significava simplesmente passar por uma fase terrível da vida.

Dentro de sua tradição espiritual, a noite fazia parte de um processo muito mais específico.

São João escreveu sobre purificação, desapego, contemplação e transformação da relação da pessoa com Deus. Em sua obra aparecem distinções entre a noite dos sentidos e a noite do espírito e entre dimensões ativas e passivas desse processo.

Tudo isso estava orientado para algo profundamente religioso: a união com Deus.

Ou seja:

uma perda não é automaticamente uma noite escura.

Uma crise não é automaticamente uma noite escura.

Uma depressão não é automaticamente uma noite escura.

Um relacionamento difícil não é automaticamente uma noite escura.

E sofrer profundamente não basta, por si só, para transformar uma experiência naquilo que São João descrevia.

Há algo ainda mais interessante.

O próprio São João procurava diferenciar a aridez propriamente espiritual de outras condições que poderiam produzir abatimento ou ausência de prazer.

Mesmo dentro de uma tradição mística, portanto, nem todo sofrimento precisava receber uma explicação espiritual.

Essa descoberta mudou a pergunta para mim.

Talvez eu não devesse perguntar:

“Eu passei por uma noite escura da alma?”

Talvez fosse mais interessante perguntar:

“Por que essa expressão pareceu reconhecer tão bem alguma coisa que eu havia vivido?”


Quando uma expressão antiga ganha uma vida nova

Ao longo do tempo, “noite escura da alma” saiu de seu contexto original.

Hoje ela aparece muito além dos mosteiros, da teologia carmelita e até do cristianismo.

É usada para falar de crises existenciais, perdas, rupturas de identidade, vazio, sofrimento psicológico, transformação pessoal e experiências espirituais difíceis.

Isso não significa que precisamos proibir qualquer uso contemporâneo da expressão porque ele não corresponde perfeitamente ao sentido de São João da Cruz.

A linguagem também viaja.

Metáforas atravessam séculos e passam a carregar experiências que seus autores originais talvez nunca tivessem imaginado.

Mas é importante saber quando isso aconteceu.

Porque uma coisa é dizer:

“São João da Cruz descreveu exatamente o que estou vivendo.”

Outra é dizer:

“Uma imagem criada dentro de uma antiga tradição espiritual encontrou alguma coisa em minha experiência.”

Hoje, a segunda me parece mais verdadeira.

Talvez o que tenha me tocado inicialmente não tenha sido uma definição teológica.

Talvez tenha sido a noite.


O que acontece quando deixamos de enxergar uma saída?

Séculos antes de nós, Søren Kierkegaard também pensou profundamente sobre o desespero.

Não como simples sinônimo de tristeza, mas como algo ligado à relação que uma pessoa estabelece consigo mesma, com aquilo que é e com aquilo que pode ser.

Em seu pensamento, possibilidade e necessidade participam dessa difícil tarefa de tornar-se si mesmo. E isso me levou a uma pergunta que não é exatamente a pergunta de Kierkegaard, mas que nasceu desse encontro com sua reflexão:

O que acontece conosco quando não conseguimos mais imaginar uma possibilidade diferente daquela que estamos vivendo?

Talvez exista uma diferença enorme entre:

“Não sei ainda como vou sair daqui”

e

“Não existe saída daqui.”

Por fora, às vezes quase nada mudou.

Por dentro, mudou tudo.

Quando penso naquele período, talvez uma das coisas que mais me apavorasse não fosse apenas o presente.

Era a possibilidade de o presente ter se tornado o meu futuro.

Eu tinha sonhos.

Sabia que queria outra vida.

Mas durante algum tempo não conseguia enxergar a ponte entre onde eu estava e onde ainda queria chegar.

Talvez esperança não seja ter certeza de que tudo ficará bem.

Talvez, em alguns momentos, esperança seja algo muito menor:

conseguir admitir que outra realidade ainda é possível.


O sofrimento precisa ter uma razão?

Quando começamos a falar sobre experiências difíceis em linguagem espiritual, existe uma tentação muito sedutora.

Transformar sofrimento em propósito.

“Precisava acontecer.”

“Veio para ensinar.”

“Era necessário para sua evolução.”

“Tudo acontece por uma razão.”

Entendo por que essas frases confortam.

Quando alguma coisa nos machuca profundamente, imaginar que havia um propósito por trás dela pode tornar o caos um pouco mais suportável.

Mas conforto e verdade não são necessariamente a mesma coisa.

Viktor Frankl dedicou grande parte de seu pensamento ao sentido, inclusive diante do sofrimento. Sua obra, porém, não exige que transformemos todo sofrimento em necessidade.

Existe uma diferença importante entre encontrar sentido diante daquilo que não podemos evitar e acreditar que precisamos sofrer para crescer.

Não precisamos.

Uma pessoa pode se transformar depois de uma experiência dolorosa sem concluir que aquela dor precisava ter acontecido.

Há duas frases que parecem semelhantes, mas dizem coisas muito diferentes:

Isso aconteceu para que eu mudasse.

e

Isso aconteceu — e eu mudei.

Na primeira, conhecemos a finalidade do sofrimento.

Na segunda, conhecemos apenas o que aconteceu depois dele.

Hoje, a segunda me parece mais honesta.

Não sei se aquilo precisava acontecer.

Não sei se havia uma grande lição escondida esperando que eu a encontrasse.

E não sinto necessidade de inventar uma.


Espiritual ou psicológico?

Existe ainda outra tentação.

Escolher um lado.

Ou aquilo foi espiritual.

Ou foi psicológico.

Mas talvez algumas experiências humanas sejam complexas demais para caber tão facilmente em uma única gaveta.

Eu tive ansiedade.

Tive crises.

Houve momentos em que experimentei aquilo que descrevo como despersonalização: uma sensação intensa de estranhamento de mim mesma, do meu corpo e da maneira como eu percebia o que estava ao meu redor.

Não preciso transformar essas experiências em “sinais de despertar espiritual” para levá-las a sério.

Da mesma forma, reconhecer o sofrimento psicológico não obriga ninguém a abandonar todas as perguntas espirituais que uma experiência possa despertar.

São perguntas diferentes.

Uma experiência pode ser vivida.

Depois interpretada.

Depois reinterpretada.

Podemos perguntar o que aconteceu psicologicamente.

Podemos perguntar o que aquilo significou existencialmente.

Podemos perguntar como uma tradição espiritual compreenderia algo semelhante.

E podemos chegar ao fim de todas essas perguntas ainda dizendo:

não sei completamente.

Isso não diminui a experiência.

Talvez apenas nos impeça de violentá-la com uma explicação conveniente.

E existe algo que considero especialmente importante dizer:

sofrimento não precisa ser suportado sozinho para adquirir dignidade.

Buscar ajuda não torna uma experiência menos espiritual, menos profunda ou menos verdadeira.

Às vezes, pedir ajuda também faz parte da travessia.


Ainda não atravessei tudo

Seria bonito terminar este texto dizendo que atravessei a noite, acordei do outro lado e agora consigo enxergar perfeitamente aquilo que aconteceu.

Mas não seria verdade.

Não completamente.

Fisicamente, ainda estou no lugar onde muita coisa aconteceu.

Externamente, nem tudo mudou.

Mas mentalmente alguma coisa mudou profundamente.

Hoje eu consigo novamente enxergar futuro.

E existe uma certeza que não possuo há muito tempo:

eu não vou morrer infeliz aqui.

Este não é o meu lugar.

Não digo isso como quem já chegou ao destino.

Digo como quem finalmente voltou a acreditar que existe um destino além do lugar em que está.

Talvez comecemos a sair de alguns lugares antes mesmo de conseguirmos partir deles.

Talvez a primeira saída aconteça quando o presente deixa de parecer uma sentença.


A certeza não voltou igual

Também não sou exatamente aquela menina que eu tanto quis recuperar.

E talvez eu nunca mais seja.

Alguma coisa mudou na maneira como olho para as pessoas.

Durante muito tempo, palavras tinham para mim um peso enorme.

Se alguém dizia que faria alguma coisa, eu acreditava.

Hoje presto mais atenção àquilo que as pessoas fazem.

Não porque eu queira viver desconfiando de todos.

Mas porque aprendi que palavras e ações precisam caminhar juntas.

Não sei ainda tudo o que essa experiência modificou em mim.

Talvez algumas coisas eu descubra apenas anos depois.

Mas sei que a antiga certeza — aquela com que comecei este texto — também está voltando diferente.

Antes, talvez houvesse nela algo parecido com:

“Não importa o que aconteça. Eu vou conseguir me reerguer.”

Hoje existe uma pequena diferença.

Eu descobri que posso chegar a um ponto em que não consigo me reerguer sozinha.

Posso precisar de ajuda.

Posso perder temporariamente aquilo que acreditava ser uma das partes mais sólidas de mim.

Posso não reconhecer a pessoa que estou me tornando.

E isso ainda não significa que minha história terminou.

Talvez força não seja nunca cair tão fundo.

Talvez também não seja conseguir sair sozinha.

Talvez, às vezes, seja apenas continuar reconhecendo que existe alguma coisa além daquele lugar — mesmo quando ainda não conseguimos alcançá-la.


E a manhã?

Ainda não sei se aquilo que vivi deveria receber o nome de “noite escura da alma”.

Depois de conhecer melhor a origem da expressão, tenho ainda mais cuidado em usá-la.

Mas continuo entendendo por que aquelas palavras me fizeram parar.

A noite é uma imagem poderosa porque não nega a escuridão.

Quando é noite, é noite.

Não precisamos fingir que existe luz onde não conseguimos vê-la.

Mas a noite também possui uma característica estranha:

ela não precisa saber como produzir a manhã.

Talvez eu ainda esteja atravessando os últimos pedaços da minha.

Talvez algumas coisas levem mais tempo para amanhecer do que outras.

Mas hoje consigo imaginar novamente aquele frescor.

Uma manhã de inverno ou primavera.

O ar um pouco frio.

A sensação de que alguma coisa mudou antes mesmo de conseguirmos explicar exatamente o quê.

E talvez, por enquanto, eu não precise de uma resposta maior do que essa.

Porque existe uma diferença imensa entre estar no escuro

e acreditar que a escuridão será tudo o que existe.

O que muda dentro de nós quando nossa vida ainda não mudou por completo — mas já conseguimos enxergar novamente que ela pode mudar?


Uma nota importante

Este texto fala de uma experiência pessoal que incluiu momentos de profunda desesperança e pensamentos sobre não querer acordar. Experiências assim não precisam ser atravessadas sozinhas.

Se pensamentos sobre morrer ou não querer continuar estiverem fazendo parte da sua experiência, procure apoio. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia. CAPS e Unidades Básicas de Saúde também podem oferecer acolhimento. Em uma situação de urgência, procure uma UPA ou pronto-socorro, ou acione o SAMU pelo 192.


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